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quarta-feira, 20 de abril de 2011

campanha nacional contra o uso de agrotóxico!!!


Agricultura sem venenos

Suco de frutas, verduras, legumes, cereais é igual a alimentação saudável?

Nem sempre.

Lançada no Dia Mundial da Saúde, a Campanha permanente contra o uso de
agrotóxicos e pela vida pretende alertar que o veneno usado nos
cultivos agrícolas brasileiros prejudica muito a saúde das pessoas e
do meio ambiente.

A campanha é organizada por mais de 20 entidades e movimentos sociais,
que pretendem realizar atividades em todo o país para conscientizar
sobre a necessidade de outro modelo de produção agrícola, sem
utilização de veneno e baseado no respeito aos direitos humanos e ao
meio ambiente, para aí, sim, produzir alimentos verdadeiramente
saudáveis.

Contra os agrotóxicos e pela vida

De acordo com a organização da campanha, com os atuais níveis de
utilização de agrotóxicos, cada brasileiro consome em média 5,2 kg de
veneno por ano e o Brasil foi considerado em 2009, segundo o sindicato
dos próprios produtores de defensivos agrícolas, o maior consumidor
destas substâncias pelo segundo ano consecutivo.

A campanha escolheu o Dia Mundial da Saúde para lançar oficialmente as
atividades. Mas, mesmo antes da data, seminários, palestras e outros
eventos tiveram como tema o prejuízo dos agrotóxicos à saúde.

Em Brasília, uma passeata contra o uso de agrotóxicos e em defesa do
código florestal reuniu mais de duas mil pessoas. A atividade fez
parte da Jornada contra o Uso de Agrotóxicos, em Defesa do Código
Florestal e pela Reforma Agrária, realizada nos dias 6 e 7/4.

O professor do Departamento de Saúde Coletiva da Universidade de
Brasília, Fernando Carneiro, presente nas atividades da jornada, conta
que os eventos foram lotados. Para ele, lançar a campanha no Dia
Mundial da Saúde é muito simbólico.

"Quando se fala de saúde da nossa população sempre se associa à fila
de hospitais, mas hoje [7/4] foi uma manhã histórica porque estávamos
discutindo verdadeiramente o conceito ampliado de saúde, discutindo o
modelo agrícola brasileiro, o que este modelo tem gerado em termos de
impacto às populações e as dificuldades do próprio sistema de saúde em
notificar os problemas decorrentes do uso de agrotóxicos", detalha.

Bancada ruralista

O professor explica porque as lutas contra o uso de venenos na
agricultura e em defesa do código florestal são convergentes.

"A bancada ruralista quer alterar a legislação para liberalizar os
agrotóxicos. No código florestal, vemos o mesmo movimento. E quem está
por trás destas duas articulações é o próprio agronegócio: querem
desmatar mais áreas e querem ter isenção de impostos para agrotóxicos.
Além disso, os temas se relacionam porque à medida que se limita a
proteção das nascentes com a mudança no código florestal, por outro
lado, se facilita a contaminação da água pelos próprios agrotóxicos.
Então, são temas com interação muito grande, que significam ameaça à
biodiversidade, à qualidade da água, elementos vitais para o nosso
país", diz.

Para a coordenadora do Sistema Nacional de Informações Toxico
Farmacológicas (Sinitox), da Fiocruz, Rosany Bochner, é necessário
negar totalmente o uso dos agrotóxicos devido aos prejuízos que tem
causado à saúde.

"É preciso deixar claro que o que queremos com a campanha não é usar
produtos menos tóxicos, não é nada paliativo. Nós não queremos mais
agrotóxicos de nenhuma forma. É uma mudança de filosofia, temos que
partir para produzir diversidade. Vamos ter que comer diferente, que
fazer muita coisa e não depende só do agricultor, depende também da
população, porque do jeito que está não é possível mais ficar",
reforça.

Rosany, que também é consultora da Agência Nacional de Vigilância
Sanitária (Anvisa), participou, junto à EPSJV/Fiocruz e a Via
Campesina, de um seminário na Universidade Federal Rural do Rio de
Janeiro (UFRRJ) sobre os impactos dos agrotóxicos.

Mortes

No dia 7 de abril, também foram realizadas atividades no Espírito
Santo, Pernambuco, São Paulo, Minas Gerais, Sergipe e Goiás. Em
Limoeiro do Norte, no Ceará, nos dias 19 e 20 de abril, serão
realizadas várias mobilizações contra o uso de agrotóxicos e em
protesto pela impunidade do assassinato do líder comunitário José
Maria Filho, conhecido como Zé Maria do Tomé, que denunciou os
impactos dos agrotóxicos na região.

No dia 21 de abril faz um ano que o agricultor foi assassinado próximo
de casa e as investigações, até o momento, não apontaram os autores do
crime.

Também no Dia Mundial da Saúde, na Câmara Federal, uma subcomissão
especial criada para avaliar as conseqüências do uso de agrotóxicos
para o país realizou uma audiência pública sobre o tema com a presença
da Anvisa, do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) e da
Confederação Nacional de Agricultura (CNA), órgão favorável ao uso dos
venenos nos cultivos. De acordo com a Agência Câmara, Anvisa e MPA
divergiram radicalmente do representante da CNA.

"Enquanto a Confederação Nacional da Agricultura (CNA) defendeu a
modernização do uso desses insumos, um representante da Anvisa e uma
deputada apontaram os efeitos negativos para a saúde humana. Já o
representante dos pequenos agricultores defendeu o fim do uso dos
agrotóxicos", informou a Agência Câmara.

Campanha contra os agrotóxicos

O material da campanha alerta que os agrotóxicos causam uma série de
doenças como câncer, problemas hormonais, problema neurológicos, má
formação do feto, depressão, doenças de pele, problemas de rim,
diarreia, entre outras.

Recentemente, uma pesquisa da Universidade Federal do Mato Grosso do
Sul detectou a presença de agrotóxicos no leite materno e nos ovos
comercializados no Brasil.

"Diante de tantas evidências de problemas, não há mais o que discutir.
Este leite envenenado é muito grave, não dá mais para ter meio-termo.
Sabemos que é uma luta de Davi contra Golias, porque são empresas
extremamente poderosas [as empresas produtoras de agrotóxicos]. Mas eu
queria saber se eles comem estes produtos cheios de agrotóxicos",
questiona Rosany.

Além da proibição definitiva do uso de venenos, a campanha afirma
ainda que a saída para uma alimentação saudável e diversificada está
no fortalecimento da agricultura familiar e camponesa.

Para isso, propõe uma série de ações, como a reforma agrária para
acabar com os latifúndios, o fim do desmatamento, a geração de
trabalho e renda para a população rural, o uso de novas tecnologias
para acabar com a utilização de agrotóxicos e a produção baseada na
agroecologia .

Casos crônicos

De acordo com Rosany, a Anvisa está muito disposta a discutir o uso
destes produtos tóxicos, entretanto, existe uma resistência de setores
do próprio governo e do legislativo.

"Tem uma bancada ruralista que quer liberar a todo custo os
agrotóxicos", pontua. A pesquisadora destaca também as dificuldades de
informação sobre os riscos de agrotóxicos no sistema de saúde. "Não
estamos acostumados a trabalhar com casos crônicos, as redes de saúde
não conseguem relacionar os sintomas com a exposição aos agrotóxicos,
dificilmente as pessoas fazem essa relação e isso dificulta muito na
hora da discussão porque eles [os defensores do uso de agrotóxicos]
falam que não temos evidências. Temos que fazer um esforço maior
nisso, fazer um treinamento melhor nos serviços de saúde, mas é
preciso investimento", afirma.

Para Fernando Carneiro, o Ministério da Saúde ainda é muito omisso em
relação ao enfrentamento do problema de identificação das
intoxicações, tanto no campo da saúde do trabalhador, quanto da saúde
ambiental.

"Eu quero que o Ministério da Saúde faça campanha sobre os riscos dos
agrotóxicos. Como faz com a campanha contra a Aids, pelo uso da
camisinha. O Ministério poderia investir também para fazer cartilhas e
difundir informações sobre os riscos dos agrotóxicos. Hoje, o único
setor que faz propaganda é o próprio agronegócio, para fazer apologia
ao uso", alerta.

raquel júnia
www.diariodasaude.com.br
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